Sábado, 27 de Dezembro de 2008

CANETA A ESCREVER UM DISCURSO DE ALMA

Ela não percebia se era a caneta que teimava em não escrever ou se era a mão que se recusava a ser cúmplice daquela palavra de despedida,

 

(Sempre apressado no voltar entrava em casa pela porta da cozinha como de costume, a quietude na casa não sendo invulgar era por aquela hora anormal. Pousou o ramo de flores que trazia diariamente e percorreu o resto da cozinha, entrou pelo corredor até chegar à sala comum onde passavam a maior parte do tempo)

 

até ali a caneta e mão foram unidas completavam-se no descrever das emoções, mas agora recusava-se a continuar, levemente irritada pela contrariedade como se alguma parte de si não quisesse colaborar naquela decisão amadurecida, resolveu pausar perante a teimosia da caneta e reler em voz alta o que a alma lhe tinha ditado até aquele momento.

 

(na sala a mesma inquietante quietude, nem sequer a lareira crepitava como de costume desde que a mudança de estação tinha roubado as folhas às arvores, espreitou de relance o escritório, pousou o casado e o cachecol no bengaleiro e subiu aos quartos, espreitou no principal, a cama arrumada, a janela fechada com as portadas abertas a deixar a luz ocupar a escuridão, abriu as portas dos restantes três quartos e apesar de não ter olhado com esse intuito tudo lhe parecia estar arrumado como de costume, a casa de banho do andar de cima estava com normal ar solitário que só se alterava quando recebiam visitas e regressou ao quarto para confirmar se a casa de banho da suite estava vazia.

Regressou ao andar de baixo e pela primeira gritou o seu nome)

 

- Laura!?

 

“Meu Querido Afonso, faz por estes dias, oito anos de felicidade, oito anos de alegrias desinteressadas com que tens povoado a minha alma egoísta. Amo-te como as flores amam a primavera pela qual se deixam florir, queira este amor poder ser trocado por alimento e não mais o mundo passaria fome. Tenho-te em carinho imenso, numa ternura de mãe que hei-de…”

 

Laura pegou de novo na caneta para rectificar o “hei-de” e releu a última frase já emendada

 

(Afonso perante o silêncio respondido insistiu mais alto e em tom claro de ansiedade)

 

- Laura, onde estás!?

 

(Percebendo o ridículo da insistência consultou a lista de assuntos discutidos durante o pequeno-almoço procurando na sua desatenção o aviso para aquela estranha ausência, Laura nunca poderia ter saído, a menos que fosse dar uma volta a pé pelo bosque ou que alguém a viesse buscar, coisa comum em tempos de folhas nas árvores e chilrear de pássaros, repetiu mentalmente a conversa matinal e em nada se revelava a razão deste desaparecimento. Abriu a porta da rua e sentiu o desagradável de estar na rua em inicio de Inverno com o vento a anunciar a chegada para breve da neve, sem sequer ter um chapéu, um gorro, fosse o que fosse para esconder o corpo daquele frio. Era impossível Laura ter saído, ela detestava o frio e nem mesmo saia para ir à garagem ali a 10 metros da casa onde guardavam a lenha para aquecer a lareira no Inverno)

 

- Lauraaaaaa !!!

 

(Gritou ouvindo-se no eco, desesperado na esperança que ela contrariasse os seus próprios hábitos, mais silêncio respondido e resolveu entrar de novo e seguir até à sala, na esperança de a ver surgir de bandeja na mão, o chá quente a fumegar o pratinho cheio de scones ainda quentes a taça com a manteiga quase derretida e aquele olhar meigo num sorriso descarado demonstrativo do amor que transbordava de si)

 

“…uma ternura de mãe que poderia ter sido não fosse este meu desespero de ser eu, da minha ingratidão perante o teu amor de perceber que um dia iríamos os dois estar sentados em expectativas diferentes quando a vida exterior se tivesse cumprido no seu ciclo a nada mais nos interessasse a não ser nós. Dentro de mim há uma Laura que tu e eu desconhecemos e ela está viva, essa minha desconhecida que me quer tomar por sua que me quer ocupar o corpo a mente a boca os meus gestos e atitudes e até as minhas palavras. Apesar do teu amor e amizade eu sou fraca, uma fragilidade incontida que se destina a ser vencida sem apelo e eu, meu amor, não te quero por perto dela, não quero que a ames, eu que nunca do teu amor senti insegurança fico agora num pranto por saber que irás amar este ser eu no futuro, este ser eu a instalar-se em mim e que abomino, quase que te odeio enlouquecida pela tua cegueira, por pensar que a vais possuir carnalmente tal como fazes comigo agora, quando finjo que me zango contigo para me deliciar com os teus carinhos, as tuas tão ternas insistências, temo que a vás perdoar, a vás desculpar a levar-lhe pãezinhos com sumo de laranja ao quarto, que a vás despertar com os odores das flores por ti colhidas. Não, meu amor, não suporto mais esta certeza, perdoa-me meu amor, mas antes de eu me transformar neste outro ser eu….”

 

E parou onde a caneta lhe segurou a mão, a sua determinação estava mais forte não vacilava sabia muito bem o que queria e não era uma caneta que a iria fazer recuar, tivera a sua oportunidade chamara-lhe a atenção mas não era aquela caneta que a iria impedir de prosseguir os seus intentos,

 

 (Ia sentar-se no sofá habitual, onde lia a correspondência, o jornal ou um livro, dividido nas conversas com Laura, quando reparou que junto às fotografias emolduradas a segurarem as memórias dos momentos a dois, estava uma carta com o seu nome bem visível em letras grandes “Afonso, Meu Amor ” sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo, pegou a tremer na carta sentou-se abriu-a rasgando-lhe o envelope ansioso e de relance adivinhou o drama, olhou à volta em desespero final de tudo ser uma partida de mau gosto)

 

-Oh Não! Laura!

 

“… preciso agora de partir enquanto sou eu, eu tenho de partir compreende-me como sempre o fizeste, perdoa-me como sempre, mas eu tenho de ir nesta egoísta decisão, sei que te deixo todo o meu amor, para te dar alento para prosseguires a tua vida sem esta alma mascarada de mim em que me estou a tornar, adeus meu amor e guarda-me em ti assim com todo este amor.

A tua sempre tua Laura”.

 

Laura terminou a carta selando-a com um beijo longo e silencioso onde tinha inscrito o nome de Afonso, dobrou o manuscrito meteu-o no envelope emudeceu o rebordo com os lábios e colocou-o na mesinha das fotografias presas em molduras que guardavam o seu passado sem futuro.

 

(e saiu com a carta na mão, sem se importar com o anuncio de neve que o vento frio espalhava por todo o bosque, correu em direcção à garagem e abriu a porta, espreitou e só viu a enorme pilha de lenha seca, só quando se virava para regressar se apercebeu do ranger da madeira, um ranger diferente daquele provocado pelas corridas que os ratos faziam ao pressentirem passos humanos, aquele ranger era muito diferente e resolveu de novo espreitar, agora por detrás da pilha de lenha, avançou e a primeira coisa que viu foram os pés nus, as pernas brancas também desnudadas até ao joelho e o resto de Laura ali inerte pendurada por uma corda)

 

-Oh Não! Lauraaa ! Não, meu amor! Não! Não! Não!

 

Cá fora escurecia rapidamente, o vento frio a anunciar a neve por entre a solidão do bosque desabava num silêncio que se fez brutal como que a escutar o pranto de um amor quebrado como se quebram todos os amores, mais tarde ou mais cedo.     

 

publicado por Sonhador de Alpendre às 01:05
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