Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
O INSUSTENTÁVEL TEMPO DA SAUDADE


Na mesa, um par de mãos, por perto duas moscas guerreavam por nada que pudesse ter nome, talvez a inquietude das asas fosse provocado pelo movimento das mãos, diga-se contudo que as mãos praticamente não se mexiam, talvez as moscas discutissem os contornos das veias, os pêlos desordenados, as sardas, talvez fosse o ar enxovalhado que tinham, repare-se em como as mãos podem ter um ar enxovalhado, como se tivessem sido lavadas e enxugadas ao sol, sem se esticarem, devolvidas aos braços sem serem engomadas, cremes e mais cremes a substituírem o ferro de engomar e o tempo silencioso a amarrotar as mãos de novo, mas aquelas mãos estavam resignadas, serenas de bem com o enxovalho, ao contrário das moscas, inquietas, à cabeçada uma com a outra, duas moscas desavindas, repare-se agora que nunca se vêem três moscas a guerrear, são sempre duas, as pessoas quando se chateiam nunca é aos pares, parece mas nunca é, é sempre com o mínimo de três ou quatro, às vezes mais, dezenas, noutras milhares e até mesmo milhões, as moscas não, são sempre duas.

 

Os óculos pousados na cor de prata da mesa, aquelas mesas onde se podem perder talheres, frias no toque, frias no olhar, despidas de importância, os dedos das mãos a tamborilar na frieza da mesa, a segurarem um cigarro, a esmagarem o cigarro, aqueles dedos enxovalhados iluminados pelo sol, pertencentes a um corpo, um corpo sentado numa cadeira, a cadeira ocupada pelo corpo das mãos enxovalhadas em frente a uma outra cadeira vazia, 30 anos a separarem as cadeiras, não é verdade, uma estava ocupada, a outra não, ainda levaria mais uns minutos até ser ocupada, o sol a ocupar as mãos e o rosto daquele corpo de mãos enxovalhadas, ora abertas ora fechadas, mais abertas, do que fechadas, nunca crispadas, e que estava ali sentado, aquele corpo, iria levantar-se dentro e pouco, a cabeça o diria, ou ditaria, que isto de cabeças é sempre uma enorme interrogação, aquela cabeça por exemplo a ditadora do corpo sentado na cadeira, a cadeira pertencente à mesa onde repousavam os óculos e as moscas, sempre duas, que as moscas só guerreiam aos pares, aquela cabeça tinha saudades, aquela cabeça achava que o corpo estava só, aquela cabeça não conseguia olhar para a frente, em frente não estava aquele mar, para além da mesa, não estava aquele alpendre em madeira, para a frente estava escuro, estava nada, talvez moscas, muitas moscas, aquela cabeça olhava para dentro na busca de cores e elas apareciam coloridas, como eram as fotografias kodak dos anos 60, cores de momentos passados, momentos felizes claro, porque os momentos tristes aparecem nas recordações a preto e branco.

 

A poucos minutos do reencontro o outro corpo caminhava lentamente, era um corpo de andar decidido, a cabeça vagueava por entre os pensamentos, os olhos olhavam sem que a cabeça processasse as imagens, poderia dizer-te que havia muita desorganização naquela pessoa, sim porque os corpos vivos pertencem a pessoas, desfilavam anos, com as memórias encerradas nesses anos a saltarem agora para dentro do momento, valia-se o corpo saber para onde se dirigia, porque caso contrário teria aquela pessoa perdido o rumo, mas na febril inquietude das memórias soltas, um momento ganhava constância, uma frase desse momento gravava-se em todo aquele corpo essa frase perseguia aquele corpo, aquela cabeça, explodia no canto das emoções quando o desespero cegava os olhos, quando o rio que lhe saia dos olhos secava a nascente de onde vinha, bem de lá de dentro, onde tudo morre primeiro, mas aquela frase, aquela frase salvadora era tão presente tão viva que nem trinta anos a tinham sequer alterado numa letra, o sabor da voz, o cheiro da voz, chegava-lhe sempre junto da frase,

 

“-Olha bem para longe, pode ser que a tristeza fique caída no fim de olhar e os teus olhos regressem a mim virgens e me vejas pela primeira vez e com esse deslumbre a felicidade cresça para sempre”

 

toda a vida e aquela frase, podia ate dar a vida em troca da vontade de realizar aquela frase, na reconstrução do momento recuperou a lucidez, despertou para a viagem, sentiu o olhar brilhar, levantou a cabeça recolocou o olhar, o corpo uniu-se todo, era agora uma pessoa completa, sem hesitar encontrou o corpo que aguardava, viu o corpo a levantar-se, não percebeu o enxovalho das mãos marcado também na cara daquele corpo, somente procurou o olhar, é no olhar que está a pessoa toda, é no olhar que não se mente, saiba-se entender o olhar, e lá estava a frase, as mãos a tocarem-se como se fossem duas moscas a fazer amor, não a guerrear, ou talvez amar e guerrear sejam irmãs, as mãos entretidas, os olhares entretidos, as bocas por vezes traidoras, quase sempre traidoras

 

“-Porque vieste à minha procura?”

 

“-Eu não vim à tua procura, vim à procura de mim porque tenho saudades de mim feliz!”



publicado por Sonhador de Alpendre às 18:05
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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
ENCRUZILHADA


Esta cicatriz que entreolho

Que não fecha nem por um instante

Uma ferida profunda que não dorme

Nem se alheia, nem descansa

Já não sinto nada

A não ser uma terna inveja pela Morte

Amiga leal dos misantropos

Que se jogam diariamente à sorte

 

Mais um Adeus

De alguém que não se despede dos seus

Mais feridas, mais cicatrizes

Humores, simpatias e directrizes

De ironia em ironia

Passam anos e destinos

Legamos dor e mais dor

Na esperança de que lhe chamem amor

 

Não há milagres

Na nascente das verdades

Quem espera o nada

Desconhece o desespero

E vê a mentira desajeitada

Escrita em todos os rostos

Desta escumalha corrompida

A quem chamam Humanidade

 

Misantropia ou morte

É a minha paradigmática encruzilhada

Sendo que uma é certa, venha de lá essa sorte

A outra é exílio com cheiro a fuga

Onde está a caverna escura e funda

Em que a chuva fica do lado de fora

Junto com a tempestade de Vozes

Onde se pode acolher o Silêncio

 

12/11/2009


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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
UM SONHO...E UM VERSO

 
De uma mão cheia de nada

escolheu um dedo e num bocado de areia

escreveu um sonho

...e um verso


 

A velha alma amargurada vagueava pela praia

tendo somente o dedo como aliado

e uma onda a levar-lhe o sonho

...e o verso


 

Olha para o mar escondido na neblina

na espera, uma mão acena-lhe

e leva com ela o sonho

…e o verso


 

A mão e os dedos

-aquele dedo a desenhar palavras-

nada mais era preciso naquele sonho

...nem no verso


 o sonho despediu-se

com palavras a meio

caladas violentamente num jogo sem vencedores

uma estória breve, como num sonho

...com um verso


 

sonho e o verso presos na memória

soltos na angústia e na ansiedade

em fuga para o mar, raptor do sonho

...e do verso


 

um fantasma a tecer teias

não de seda, mas de palavras

envoltas em mais e mais areias

tudo a fugir para o mar junto com o sonho

...e o verso

 

 

e no fim de dentro da neblina

uma voz sussurrou

“o que é a despedida?”

e na areia, as palavras desenhadas respondiam

“é um verso escrito na areia como se fosse

um sonho varrido por uma onda vadia”


 

30/10/2009

Para ti Catarina

Que os dias não mais te pesem
e que os teus Sonhos possam voar livres.

 


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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
SE AO MENOS SOUBESSE…

Se ao menos soubesse onde ela fica

Como gostaria de estar em casa

Teria uma lareira

(todas as casas deviam ter uma lareira)

 

um tapete trazido de uma viagem pela Arábia

Almofadas coloridas feitas à mão

por índios da Nicarágua

(e um sofá, sempre um sofá para dois)

 

Uma mesa de madeira trabalhada

Com revistas de decoração

E o meu coração…

(fechado, porque só fechado sossega)

 

Paul Simon cantaria “Homeward Bound”

Aos primeiros acordes soados

Os olhos humedeceriam

(é sempre assim que se deve recordar a felicidade)

 

E sem sabermos de escolhas medíocres

Escutaríamos de mãos dadas

E cabeças encostadas

(talvez ao colo, se fosse perfeito)

 

Recitava poemas

Compreendidos em absolutas sintonias

Musicados em generosas sinfonias

(a generosidade é sempre romântica)

 

Compunha canções

Que falassem comigo

E despertassem alheias emoções

(será a música a prova da existência do Homem)

 

Desenharia silêncios

Com harmonias simples

Soubesse eu ao menos como

(Fugiremos todos de o saber?)

 

Se pudesse confortar alguém

E não necessitasse ser confortado

Se ao menos soubesse como…

(nunca sabemos tocar afinadamente em duo)

 

Se ao menos soubesse a quem pertenço

Em pensamentos sussurrados

E contudo por vezes escutados

(na magia de falar em silêncio)

 

Uma vida sem rostos estranhos

Preenchida soubesse eu ao menos como

Mas que me levasse até casa

(parece que andamos sempre na direcção contraria)

 

Se ao menos soubesse apaziguar-me

Seria uma pedra granítica

Envelhecendo até ser areia

(os velhos infelizes assim se transformam)

 

Nesta encruzilhada de milhentas estradas

Como gostava eu de estar em casa

Se ao menos soubesse o caminho…

 

25/09/2009


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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
CANÇÃO ENCANTADA


Canto ao Vento

Que me sopra encantos

em palavras misteriosas

 

Pássaros que chilreiam

em sinfonias diversas

por Almas dispersas

 

Refresco-me com gotículas únicas

caídas de um salgueiro

com os cabelos desalinhados

 

Cheiro o fundo da terra

coberta por relva húmida

iluminada pelo sol poente

 

Canto à Terra

para onde escorregam as lágrimas

com dores e alegria

 

Rostos inocentes de crianças

de olhar em sofrimento

com sorrisos por despertar

 

Casas cheias de gargalhadas

com conversas gravadas

no papel das suas paredes

 

Braços cruzados em peitos vazios

em canções adormecidas

entoadas por anjos

 

Canto ao Fogo

que derrete o desespero

e desenha o futuro  

 

Em rostos enrugados

com olhares gastos

por sorrisos forçados

 

Noites em branco

vestidas de escuro

num amanhecer constante

 

Corpos encolhidos

Em poses discretas

Na escolha do esperar

 

Canto ao Mar

em sons que se escoam

por entre dunas íngremes

 

Como bolas coloridas

passadas de mão em mão

em praias perdidas

 

Vozes sempre presentes

eternamente lembradas

nos intervalos das marés

 

Pulam-se as cercas

das fronteiras encerradas

a caminho do futuro

 

Siga-se o farol luminoso

na busca do porto seguro

de um viver esplendoroso

 

 

 23/09/2009

 

 

(Deve-se ler a ouvir  “Little Willow” de Paul McCartney)

 

com um beijo, para a Ana


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publicado por Sonhador de Alpendre às 14:34
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2009
DESDÉMONA - UM AMOR ETERNO

Fazia naquele ano 13 anos desde que a Desdémona tinha partido, como fará 35 anos neste ano, em que presentemente nos encontramos. Portanto completam-se 22 anos.
Faria anos hoje e acordei de madrugada, logo hoje que não tinha despertador a assinalar mais um dia de escola, de despertar obrigatório, hoje podia dormir tudo o que me apetecesse e conseguisse, mas não, despertei ainda mais cedo, muito mais cedo daquilo que é normal nos dias de levar as crianças à escola.
 
Desdémona já me tinha feito isto uma vez, se calhar já me fez mais vezes,
(tenho a certeza que o fez mais vezes)
 
mas recordo a de hoje e a primeira há já 22 anos e que chegou na forma de um sonho a esvoaçar
(porque é a primeira coisa que recordo do sonho, a sala de jantar, as portadas de madeira altas, enormes)
 
as cortinas brancas a esvoaçarem, a tocarem-me na cara. Se vivesse dentro do sonho ou melhor se o sonho me tivesse levado para a sua realidade e lá me cativasse para sempre era bom. Devia ser assim a morte para eu não me importar nem com quem morre nem de eu morrer.
 
(Podia morrer a ver um filho a nascer, a marcar um golo num estádio cheio de gente a aplaudir, a erguer uma taça numa competição automobilística,a receber um prémio por uma fotografia ou um texto, até mesmo um blogger award ou estar  imortalizado numa merda qualquer daquelas em que ficamos estupidamente petrificados num largo com coreto e tudo mais os pássaros a cagarem em cima e os turistas a tirarem fotografias, ou ter o nome numa rua que ninguém sabe onde fica e quem lá fica não sabe quem é a pessoa do nome  daquela rua. Mas era assim que gostava de morrer, preso até a eternidade num sonho, neste sonho)
 
Aquela cortina a esvoaçar e a tocar-me na cara ao de leve, a despertar-me da escuridão e eu a acordar para dentro daquele sonho, com as portadas enormes semi-abertas e a luz, devia ser na parte da manhã, naquela sala as cores eram melhores pela manhã. Os dois louceiros estavam lá, o ranger do soalho aos passos já gastos da Desdémona. Na mesa onde tomávamos o pequeno-almoço depois de o cheiro do café e do pão fresco me ter despertado apesar de fingir continuar a dormir
(a minha avó acordava-me com uma voz que me acarinhava o despertar)
 
Não gritava para se impor mas impunha-se nove filhos sempre na mesa de natal, eles e os netos, um natal digno.
A mesma dignidade que a levou um dia a dizer á irmã “Diz ao Custódio que eu dou-lhe o divórcio, para teres a dignidade de pelo menos seres uma mulher casada”,
(Desdémona falava com a irmã mais nova que tinha ficado com os braços do seu amado, assim, como ficou nos seus, muito antes quando a mãe delas morreu ainda muito nova)
 
Nunca ninguém percebeu lá muito bem porque se separaram, havia tristeza nos olhos dos dois no dia em que se despediram, depois restou o silêncio do orgulho, como silenciosa tinham sido os motivos que os separaram, nunca nenhum dos nove filhos lhe ouviram uma discussão um azedume, somente o silêncio entre eles que cresceu ao ponto de não conseguirem conversar. Acredito que se amaram até ao fim.
(Eu sei que se amaram pela eternidade)
 
Ele morreu primeiro e o funeral passou de propósito pela casa dela, para se despedirem.
 
Foram estas as lições que aprendi com a única mulher que me amou até à eternidade, todas ou quase todas em silêncio, as outras eram ao meu lado à noite a rezar virados para a imagem da Nossa Senhora de Fátima e o menino Jesus na proximidade do Natal.
Hoje voltou de novo não me disse nada mas eu entendi, veio agradecer-me e eu sei porquê, veio também dar-me o seu perdão e consentimento e eu sei porquê, pedi-lho há dias e veio também ensinar-me mais coisas, em silêncio tal como na primeira vez.
 
Nessa também não me falou disso tenho a certeza só depois percebi tudo aquilo era estranho para mim, não me apetecia nada acordar daquele sonho
(Se a morte fosse assim, podia morrer sem me importar)
 
ninguém tem cheiros nos sonhos mas aquele sonho tinha um intenso cheiro a café acabado de fazer e a pão fresco, a memória do sonho era tão intenso que de facto tinha a “certeza” que tinha estado lá.
A minha mãe estava por perto naquele dia
(nessa altura ainda estava por perto)
 
e porque tinha acordado sentindo-me ainda menino, tão menino que sentia vontade de fazer aquilo que fazem os meninos, acolherem-se num colo e partilharem os seus sonhos. O baque veio depois de ter comentado a estranheza e sobretudo a intensidade daquele sonho, pela boca daquela minha mãe que me escutou de olhos em baixo
(podia não olhar directamente para mim, mas nunca baixava os olhos)
 
deixando-me falar até ao fim, esperou pelo silêncio e disse-,e: “ A tua avó se fosse viva fazia anos hoje”.
 
 
22 de Setembro de 2009
 
Com uma lágrima teimosa a espreitar no olho e em pranto inconsolável na alma, dedico este texto e a minha vida â minha avó Isabel Desdémona que de facto foi a única mulher que me amou até à eternidade e que se fosse viva (e no entanto está tão viva em mim) faria anos hoje.
 
 

 

 



publicado por Sonhador de Alpendre às 14:38
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