Sábado, 26 de Novembro de 2011
PARABÉNS PAI

Resta uma brisa,

do vento que soprou forte,

ou talvez nem isso,

somente cinzas dentro de um pote.

Por vezes é tão mais fácil a morte

 

Dois anos.

Descobri-te nas palavras

ainda sorris,

estagnado nas fotografias,

por cá as noites e os dias,

todos solitários.

 

Os amores,

navegando entre

ilusões e desilusões

barcos e aviões

preenchem-te os sonhos.

 

A tristeza,

do irmão desaparecido

primeiro os pais

e depois o pai,

tudo a somar no futuro

na falta de porto seguro

 

Vi-te nos olhos o adeus

sorriso destruído

no azul dos olhos tristes

o murro na mesa

de uma criança

“Porque é que insistes?”

Contigo foi-se a esperança.

 

Dois anos

Fumo no céu, cinzas na terra

E tu por ai dividido,

como um pinheiro desfeito pela serra

sem o mundo se ter despedido.

 

Paz!

Como um rio seco

que enche na água

ficando areia no verão

num carrossel a preto e branco

Numa mágoa sem descanso.

 

Acendam-se as velas

Abram todas as janelas de dentro do vento

Assopro no balão a que te prendo

um grito bem alto

Parabéns Pai!

 


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publicado por Sonhador de Alpendre às 05:02
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Domingo, 6 de Novembro de 2011
FAZ, NESTE DIA, PRECISAMENTE UM ANO

Neste dia que não sei qual é

somente sei que faz,

a morte de mim,

precisamente um ano.

Nisso não há nenhum engano.

Cá neste longe onde agora habito

pouco me importa o que deixei escrito.

A caneta parou,

faz neste dia precisamente um ano,

vivo sem dores, sem sequer um engano

tive-os de sobra,

coleccionei-os, os meus e os dos outros

na sua maioria, enganos nossos.

Para aqui estou

todo cinzas, nem carne nem ossos.

Faz neste dia precisamente um ano

que nada sei de mim,

sei que houve lágrimas,

de gente que me enternece

nem sei se tenho saudades de mim

presumo que sim

porque gostava dos intervalos

que o sofrimento concede.

 

Faz neste dia, precisamente um ano

que aqui cheguei,

sei!

que daqui não regressarei.

Pensava procurar

melhor!

pensava encontrar

os que chegaram primeiro

mas não, nem os procurei,

julguei a sua partida

como severa punição,

mas o castigo, esse,

esse tive-o

em não ter passado tempo com eles

 

5/11/2011


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publicado por Sonhador de Alpendre às 10:26
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011
QUANTO TEMPO É PRECISO PARA ATENUAR A SAUDADE?

O MUNDO FICOU MENOS INTERESSANTE

 

Lia-me as palavras

Adivinhava-me as dores que sofria ao pari-las

Pouco se importava com elas

Antes, pouco se importava com os seus pormenores

Com as suas voltas

ignorando o grito das revoltas

 

mas generosamente sabia-as de cor

e oferecia-me o colo sofrido

ainda mais, tão violentamente mais que o meu

que me fazia sentir envergonhado

ao saber que as lia

no sentir muito seu

enquanto me servia afectos

no conforto que sempre me trazia

 

Estas serão as primeiras palavras que não lerá

Será?

Dedicava-me pensamentos

Em vez de poemas

Mas que me diziam tanto

 

Não me pertencia,

porque no fundo ninguém nos pertence

era mais uma devoção estranha

que se foi entranhando

com o mesmo significado

por vezes parecia até mais, mas não era

não podia ser

 

foi embora silenciosa

e eu permaneci, esbarrando em portas fechadas

perdido em silêncios misteriosos

inexplicáveis...

 

O fumo a esvair-se e em delirios criativos

Fechei os olhos e fiz-lhe perguntas

Pareceu-me ouvir aquela voz determinada

A calar-me as pieguices

Nas raras lágrimas que explodiam a dor silenciada

O fumo, a rumar, primeiro a Este

Como um comboio invisivel na planicie

Depois a subir aos céus

 

Fomos os últimos

Herdeiros não, mas testemunhas, não da bondade,

mas da verdade de um viver sábio

Tão melhor que os melhores dos melhores

Era a melhor pessoa que ainda permanecia

E eu queria tanto que ficasse, precisava tanto que ficasse

Mas desconfio que já se pôs a arrumar o céu

A ralhar com Deus

a pôr Deus na ordem

E ele obediente a obedecer

 

O mundo a ficar com menos interesse

O mundo desinteressante, o mundo menor

Relembro palavra por palavra

sei-as todas de cor

Até as minhas, aquelas em que digo

Partiu uma das melhores pessoas que jamais conheci

 

"Mãe" Capela - Um ano cheio de dias vazios...

 



publicado por Sonhador de Alpendre às 11:10
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
(É TÃO) DELICADO

É tão Delicado

este sentimento

Que me faz escorrer palavras dos dedos

Como se fossem ternos segredos

 

É tão Delicado

o momento

Em que trago ao mundo uma vida

Que me prolonga depois da despedida

 

É tão Delicado

O incerto do certo

Do deve e haver do crescer

Que ao acaso deixa fluir o saber

 

É tão Delicado

O nascer da noite

No mergulho por dentro de ti

Que me faz renascer todos os dias

 

É tão Delicado...

O nó que em mim se entrelaça

E me silencia

Onde só os olhos não mentem

 

É tão delicado

O sorriso

Esboçado de cada vez que te vejo

Mesmo na ausência de um beijo

 

É tão Delicado

Um abraço

Que nunca dura o necessário

Porque o tempo do mundo é escasso

 

É tão Delicado

O silêncio

Ao deixá-los partir

Quando os tenho tão presos dentro de mim

 

É tão Delicado

Este sentir que sei de cor

E me faz estremecer os lábios

Ao pronunciar a palavra...Amor!

 

29/4/2011

Para cada um dos meus filhos com um muito Delicado sentimento

 

Deve-se ler a ouvir “Delicate” de Damien Rice


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publicado por Sonhador de Alpendre às 16:38
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
MISTURADO NO TEMPO

Gostava de me misturar com o Tempo

Só porque ele é desmemoriado

Talvez

ficasse um tolo sem passado nem futuro

 

Se calhar é por isso que não me misturo

Nem por ela que nunca sabe a quantas anda

Que me queria nu

Acabado de chegar ao mundo

 

Nem sempre chego ao fundo

Devia ir mais e mais

Sem respirar

Neste amor em fade out

 

Calo-me num completo black out

Mentira!

As saudades batem-me com violência

Tanto sangue a ferver cá dentro

 

Pratos novos a estrear

Um vinho velho

Nostalgia misógina

Se fosse possível sermos um par

 

Saltava de novo para o ar

E ficava supsenso no tempo

E em vez de me misturar com ele

Agarrava-me à memória do momento

 

 

12/1/2011



publicado por Sonhador de Alpendre às 00:12
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
SOLIDÃO ACOMPANHADA

É meu o que me alcança a vista

excepto o melro que me passeia pelo jardim

pois que sem eu saber

pertence-lhe mais a ele do que a mim

que somente mo garantem palavras amarradas

Enquanto que ao pássaro, basta-lhe minhocas e migalhas

Como se um mundo cinzento desabasse

Por inteiro

E dos seus destroços surgissem

Seres abraçados

E o seu clamor fosse o de uma festa

Sem principio nem fim

Afinal a vista nada alcança

agora que espreito o melro e o por detrás do cinzento

agora que escuto e prescuto labirintos iluminados

a apontarem a saida por entre risos juvenis

Não me acordem!

Deixem as cores brotar

E sem furia alguma

(tão somente uma indomável vontade),

rasgar um evidente cenário de obediência

e acabar de vez com a lei e a ciência

Agora a estrada já não se faz de sentidos proibidos e obrigatórios

tão pouco viajo, adormecido ou escorraçado

vou só

mas com a solidão acompanhada



publicado por Sonhador de Alpendre às 00:04
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