Os óculos pousados na cor de prata da mesa, aquelas mesas onde se podem perder talheres, frias no toque, frias no olhar, despidas de importância, os dedos das mãos a tamborilar na frieza da mesa, a segurarem um cigarro, a esmagarem o cigarro, aqueles dedos enxovalhados iluminados pelo sol, pertencentes a um corpo, um corpo sentado numa cadeira, a cadeira ocupada pelo corpo das mãos enxovalhadas em frente a uma outra cadeira vazia, 30 anos a separarem as cadeiras, não é verdade, uma estava ocupada, a outra não, ainda levaria mais uns minutos até ser ocupada, o sol a ocupar as mãos e o rosto daquele corpo de mãos enxovalhadas, ora abertas ora fechadas, mais abertas, do que fechadas, nunca crispadas, e que estava ali sentado, aquele corpo, iria levantar-se dentro e pouco, a cabeça o diria, ou ditaria, que isto de cabeças é sempre uma enorme interrogação, aquela cabeça por exemplo a ditadora do corpo sentado na cadeira, a cadeira pertencente à mesa onde repousavam os óculos e as moscas, sempre duas, que as moscas só guerreiam aos pares, aquela cabeça tinha saudades, aquela cabeça achava que o corpo estava só, aquela cabeça não conseguia olhar para a frente, em frente não estava aquele mar, para além da mesa, não estava aquele alpendre em madeira, para a frente estava escuro, estava nada, talvez moscas, muitas moscas, aquela cabeça olhava para dentro na busca de cores e elas apareciam coloridas, como eram as fotografias kodak dos anos 60, cores de momentos passados, momentos felizes claro, porque os momentos tristes aparecem nas recordações a preto e branco.
A poucos minutos do reencontro o outro corpo caminhava lentamente, era um corpo de andar decidido, a cabeça vagueava por entre os pensamentos, os olhos olhavam sem que a cabeça processasse as imagens, poderia dizer-te que havia muita desorganização naquela pessoa, sim porque os corpos vivos pertencem a pessoas, desfilavam anos, com as memórias encerradas nesses anos a saltarem agora para dentro do momento, valia-se o corpo saber para onde se dirigia, porque caso contrário teria aquela pessoa perdido o rumo, mas na febril inquietude das memórias soltas, um momento ganhava constância, uma frase desse momento gravava-se em todo aquele corpo essa frase perseguia aquele corpo, aquela cabeça, explodia no canto das emoções quando o desespero cegava os olhos, quando o rio que lhe saia dos olhos secava a nascente de onde vinha, bem de lá de dentro, onde tudo morre primeiro, mas aquela frase, aquela frase salvadora era tão presente tão viva que nem trinta anos a tinham sequer alterado numa letra, o sabor da voz, o cheiro da voz, chegava-lhe sempre junto da frase,
“-Olha bem para longe, pode ser que a tristeza fique caída no fim de olhar e os teus olhos regressem a mim virgens e me vejas pela primeira vez e com esse deslumbre a felicidade cresça para sempre”
toda a vida e aquela frase, podia ate dar a vida em troca da vontade de realizar aquela frase, na reconstrução do momento recuperou a lucidez, despertou para a viagem, sentiu o olhar brilhar, levantou a cabeça recolocou o olhar, o corpo uniu-se todo, era agora uma pessoa completa, sem hesitar encontrou o corpo que aguardava, viu o corpo a levantar-se, não percebeu o enxovalho das mãos marcado também na cara daquele corpo, somente procurou o olhar, é no olhar que está a pessoa toda, é no olhar que não se mente, saiba-se entender o olhar, e lá estava a frase, as mãos a tocarem-se como se fossem duas moscas a fazer amor, não a guerrear, ou talvez amar e guerrear sejam irmãs, as mãos entretidas, os olhares entretidos, as bocas por vezes traidoras, quase sempre traidoras
“-Porque vieste à minha procura?”
“-Eu não vim à tua procura, vim à procura de mim porque tenho saudades de mim feliz!”
Esta cicatriz que entreolho
Que não fecha nem por um instante
Uma ferida profunda que não dorme
Nem se alheia, nem descansa
Já não sinto nada
A não ser uma terna inveja pela Morte
Amiga leal dos misantropos
Que se jogam diariamente à sorte
Mais um Adeus
De alguém que não se despede dos seus
Mais feridas, mais cicatrizes
Humores, simpatias e directrizes
De ironia em ironia
Passam anos e destinos
Legamos dor e mais dor
Na esperança de que lhe chamem amor
Não há milagres
Na nascente das verdades
Quem espera o nada
Desconhece o desespero
E vê a mentira desajeitada
Escrita em todos os rostos
Desta escumalha corrompida
A quem chamam Humanidade
Misantropia ou morte
É a minha paradigmática encruzilhada
Sendo que uma é certa, venha de lá essa sorte
A outra é exílio com cheiro a fuga
Onde está a caverna escura e funda
Em que a chuva fica do lado de fora
Junto com a tempestade de Vozes
Onde se pode acolher o Silêncio
12/11/2009
De uma mão cheia de nada
escolheu um dedo e num bocado de areia
escreveu um sonho
...e um verso
A velha alma amargurada vagueava pela praia
tendo somente o dedo como aliado
e uma onda a levar-lhe o sonho
...e o verso
Olha para o mar escondido na neblina
na espera, uma mão acena-lhe
e leva com ela o sonho
…e o verso
A mão e os dedos
-aquele dedo a desenhar palavras-
nada mais era preciso naquele sonho
...nem no verso
o sonho despediu-se
com palavras a meio
caladas violentamente num jogo sem vencedores
uma estória breve, como num sonho
...com um verso
sonho e o verso presos na memória
soltos na angústia e na ansiedade
em fuga para o mar, raptor do sonho
...e do verso
um fantasma a tecer teias
não de seda, mas de palavras
envoltas em mais e mais areias
tudo a fugir para o mar junto com o sonho
...e o verso
e no fim de dentro da neblina
uma voz sussurrou
“o que é a despedida?”
e na areia, as palavras desenhadas respondiam
“é um verso escrito na areia como se fosse
um sonho varrido por uma onda vadia”
30/10/2009
Para ti Catarina
Que os dias não mais te pesem
e que os teus Sonhos possam voar livres.
Se ao menos soubesse onde ela fica
Como gostaria de estar em casa
Teria uma lareira
(todas as casas deviam ter uma lareira)
um tapete trazido de uma viagem pela Arábia
Almofadas coloridas feitas à mão
por índios da Nicarágua
(e um sofá, sempre um sofá para dois)
Uma mesa de madeira trabalhada
Com revistas de decoração
E o meu coração…
(fechado, porque só fechado sossega)
Paul Simon cantaria “Homeward Bound”
Aos primeiros acordes soados
Os olhos humedeceriam
(é sempre assim que se deve recordar a felicidade)
E sem sabermos de escolhas medíocres
Escutaríamos de mãos dadas
E cabeças encostadas
(talvez ao colo, se fosse perfeito)
Recitava poemas
Compreendidos em absolutas sintonias
Musicados em generosas sinfonias
(a generosidade é sempre romântica)
Compunha canções
Que falassem comigo
E despertassem alheias emoções
(será a música a prova da existência do Homem)
Desenharia silêncios
Com harmonias simples
Soubesse eu ao menos como
(Fugiremos todos de o saber?)
Se pudesse confortar alguém
E não necessitasse ser confortado
Se ao menos soubesse como…
(nunca sabemos tocar afinadamente em duo)
Se ao menos soubesse a quem pertenço
Em pensamentos sussurrados
E contudo por vezes escutados
(na magia de falar em silêncio)
Uma vida sem rostos estranhos
Preenchida soubesse eu ao menos como
Mas que me levasse até casa
(parece que andamos sempre na direcção contraria)
Se ao menos soubesse apaziguar-me
Seria uma pedra granítica
Envelhecendo até ser areia
(os velhos infelizes assim se transformam)
Nesta encruzilhada de milhentas estradas
Como gostava eu de estar em casa
Se ao menos soubesse o caminho…
25/09/2009
Canto ao Vento
Que me sopra encantos
em palavras misteriosas
Pássaros que chilreiam
em sinfonias diversas
por Almas dispersas
Refresco-me com gotículas únicas
caídas de um salgueiro
com os cabelos desalinhados
Cheiro o fundo da terra
coberta por relva húmida
iluminada pelo sol poente
Canto à Terra
para onde escorregam as lágrimas
com dores e alegria
Rostos inocentes de crianças
de olhar em sofrimento
com sorrisos por despertar
Casas cheias de gargalhadas
com conversas gravadas
no papel das suas paredes
Braços cruzados em peitos vazios
em canções adormecidas
entoadas por anjos
Canto ao Fogo
que derrete o desespero
e desenha o futuro
Em rostos enrugados
com olhares gastos
por sorrisos forçados
Noites em branco
vestidas de escuro
num amanhecer constante
Corpos encolhidos
Em poses discretas
Na escolha do esperar
Canto ao Mar
em sons que se escoam
por entre dunas íngremes
Como bolas coloridas
passadas de mão em mão
em praias perdidas
Vozes sempre presentes
eternamente lembradas
nos intervalos das marés
Pulam-se as cercas
das fronteiras encerradas
a caminho do futuro
Siga-se o farol luminoso
na busca do porto seguro
de um viver esplendoroso
(Deve-se ler a ouvir “Little Willow” de Paul McCartney)
com um beijo, para a Ana
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