Resta uma brisa,
do vento que soprou forte,
ou talvez nem isso,
somente cinzas dentro de um pote.
Por vezes é tão mais fácil a morte
Dois anos.
Descobri-te nas palavras
ainda sorris,
estagnado nas fotografias,
por cá as noites e os dias,
todos solitários.
Os amores,
navegando entre
ilusões e desilusões
barcos e aviões
preenchem-te os sonhos.
A tristeza,
do irmão desaparecido
primeiro os pais
e depois o pai,
tudo a somar no futuro
na falta de porto seguro
Vi-te nos olhos o adeus
sorriso destruído
no azul dos olhos tristes
o murro na mesa
de uma criança
“Porque é que insistes?”
Contigo foi-se a esperança.
Dois anos
Fumo no céu, cinzas na terra
E tu por ai dividido,
como um pinheiro desfeito pela serra
sem o mundo se ter despedido.
Paz!
Como um rio seco
que enche na água
ficando areia no verão
num carrossel a preto e branco
Numa mágoa sem descanso.
Acendam-se as velas
Abram todas as janelas de dentro do vento
Assopro no balão a que te prendo
um grito bem alto
Parabéns Pai!
Neste dia que não sei qual é
somente sei que faz,
a morte de mim,
precisamente um ano.
Nisso não há nenhum engano.
Cá neste longe onde agora habito
pouco me importa o que deixei escrito.
A caneta parou,
faz neste dia precisamente um ano,
vivo sem dores, sem sequer um engano
tive-os de sobra,
coleccionei-os, os meus e os dos outros
na sua maioria, enganos nossos.
Para aqui estou
todo cinzas, nem carne nem ossos.
Faz neste dia precisamente um ano
que nada sei de mim,
sei que houve lágrimas,
de gente que me enternece
nem sei se tenho saudades de mim
presumo que sim
porque gostava dos intervalos
que o sofrimento concede.
Faz neste dia, precisamente um ano
que aqui cheguei,
sei!
que daqui não regressarei.
Pensava procurar
melhor!
pensava encontrar
os que chegaram primeiro
mas não, nem os procurei,
julguei a sua partida
como severa punição,
mas o castigo, esse,
esse tive-o
em não ter passado tempo com eles
5/11/2011
O MUNDO FICOU MENOS INTERESSANTE
Lia-me as palavras
Adivinhava-me as dores que sofria ao pari-las
Pouco se importava com elas
Antes, pouco se importava com os seus pormenores
Com as suas voltas
ignorando o grito das revoltas
mas generosamente sabia-as de cor
e oferecia-me o colo sofrido
ainda mais, tão violentamente mais que o meu
que me fazia sentir envergonhado
ao saber que as lia
no sentir muito seu
enquanto me servia afectos
no conforto que sempre me trazia
Estas serão as primeiras palavras que não lerá
Será?
Dedicava-me pensamentos
Em vez de poemas
Mas que me diziam tanto
Não me pertencia,
porque no fundo ninguém nos pertence
era mais uma devoção estranha
que se foi entranhando
com o mesmo significado
por vezes parecia até mais, mas não era
não podia ser
foi embora silenciosa
e eu permaneci, esbarrando em portas fechadas
perdido em silêncios misteriosos
inexplicáveis...
O fumo a esvair-se e em delirios criativos
Fechei os olhos e fiz-lhe perguntas
Pareceu-me ouvir aquela voz determinada
A calar-me as pieguices
Nas raras lágrimas que explodiam a dor silenciada
O fumo, a rumar, primeiro a Este
Como um comboio invisivel na planicie
Depois a subir aos céus
Fomos os últimos
Herdeiros não, mas testemunhas, não da bondade,
mas da verdade de um viver sábio
Tão melhor que os melhores dos melhores
Era a melhor pessoa que ainda permanecia
E eu queria tanto que ficasse, precisava tanto que ficasse
Mas desconfio que já se pôs a arrumar o céu
A ralhar com Deus
a pôr Deus na ordem
E ele obediente a obedecer
O mundo a ficar com menos interesse
O mundo desinteressante, o mundo menor
Relembro palavra por palavra
sei-as todas de cor
Até as minhas, aquelas em que digo
Partiu uma das melhores pessoas que jamais conheci
"Mãe" Capela - Um ano cheio de dias vazios...
É tão Delicado
este sentimento
Que me faz escorrer palavras dos dedos
Como se fossem ternos segredos
É tão Delicado
o momento
Em que trago ao mundo uma vida
Que me prolonga depois da despedida
É tão Delicado
O incerto do certo
Do deve e haver do crescer
Que ao acaso deixa fluir o saber
É tão Delicado
O nascer da noite
No mergulho por dentro de ti
Que me faz renascer todos os dias
É tão Delicado...
O nó que em mim se entrelaça
E me silencia
Onde só os olhos não mentem
É tão delicado
O sorriso
Esboçado de cada vez que te vejo
Mesmo na ausência de um beijo
É tão Delicado
Um abraço
Que nunca dura o necessário
Porque o tempo do mundo é escasso
É tão Delicado
O silêncio
Ao deixá-los partir
Quando os tenho tão presos dentro de mim
É tão Delicado
Este sentir que sei de cor
E me faz estremecer os lábios
Ao pronunciar a palavra...Amor!
29/4/2011
Para cada um dos meus filhos com um muito Delicado sentimento
Deve-se ler a ouvir “Delicate” de Damien Rice
Gostava de me misturar com o Tempo
Só porque ele é desmemoriado
Talvez
ficasse um tolo sem passado nem futuro
Se calhar é por isso que não me misturo
Nem por ela que nunca sabe a quantas anda
Que me queria nu
Acabado de chegar ao mundo
Nem sempre chego ao fundo
Devia ir mais e mais
Sem respirar
Neste amor em fade out
Calo-me num completo black out
Mentira!
As saudades batem-me com violência
Tanto sangue a ferver cá dentro
Pratos novos a estrear
Um vinho velho
Nostalgia misógina
Se fosse possível sermos um par
Saltava de novo para o ar
E ficava supsenso no tempo
E em vez de me misturar com ele
Agarrava-me à memória do momento
12/1/2011
É meu o que me alcança a vista
excepto o melro que me passeia pelo jardim
pois que sem eu saber
pertence-lhe mais a ele do que a mim
que somente mo garantem palavras amarradas
Enquanto que ao pássaro, basta-lhe minhocas e migalhas
Como se um mundo cinzento desabasse
Por inteiro
E dos seus destroços surgissem
Seres abraçados
E o seu clamor fosse o de uma festa
Sem principio nem fim
Afinal a vista nada alcança
agora que espreito o melro e o por detrás do cinzento
agora que escuto e prescuto labirintos iluminados
a apontarem a saida por entre risos juvenis
Não me acordem!
Deixem as cores brotar
E sem furia alguma
(tão somente uma indomável vontade),
rasgar um evidente cenário de obediência
e acabar de vez com a lei e a ciência
Agora a estrada já não se faz de sentidos proibidos e obrigatórios
tão pouco viajo, adormecido ou escorraçado
vou só
mas com a solidão acompanhada
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